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Estratégias para Ensinar Brincadeiras

Uma das dificuldades das crianças com autismo é a habilidade de brincar com os pares neurotípicos.

A primeira dica é fornecer instruções específicas para o comportamento social adequado nas várias situações de brincadeira. Pesquisas mostram que interações extensas e planejadas com pares facilitam o desenvolvimento da habilidade social.

A brincadeira foi descrita como uma “oficina infantil”, onde regras e consequências sociais são exploradas (Bruner, 1975). Ensinar uma brincadeira a uma criança tem consequências além do próprio jogo: além de se divertir, isso pode levar ao engajamento social, a formação de amizades e criar oportunidades abundantes de imitação, negociação, cooperação e outras habilidades. No entanto, embora importante, o ensino de brincadeiras para crianças com autismo muitas vezes envolve muitos desafios, por exemplo, a brincadeira não é motivadora para a criança, a necessidade de ajuda mais intrusiva, ter que ensinar as regras de cada brincadeira e manejar o comportamento inadequado. Alguns desses desafios podem ser superados usando as estratégias descritas abaixo.

Considerações ao escolher uma brincadeira

Escolha uma brincadeira que corresponda ao nível de desenvolvimento da criança, que incorpore seus interesses e facilite o desenvolvimento de habilidades sociais. Algumas brincadeiras podem fornecer um contexto social apropriado para os interesses perseverantes de crianças com autismo, como por exemplo, brincar de carrinho (Koegel et al., 2012; Baker, Koegel & Koegel, 1998). É uma ótima ideia modificar as brincadeiras para acomodar os interesses da criança. Por exemplo, se a criança tiver um grande interesse em veículos, a brincadeira Sinal Vermelho / Sinal Verde pode ser modificado para ser brincado com carros em vez de pessoas.

As crianças com autismo são menos propensas a aprender habilidades de brincadeira apropriadas para a idade através da mera exposição dos materiais da brincadeira e das crianças usando esses materiais. Em vez disso, a intervenção direta e explícita é muitas vezes necessária para ensinar habilidades de brincar apropriadas para essas crianças (Lifter, Mason & Barton, 2012; Malone e Langone, 1999). Ao planejar as interações sociais e brincadeira

com outros, a criança com autismo deve entender o que fazer antes de ser colocada na situação de brincar e ter a mediação adequada de adultos para evitar experiências sociais desagradáveis que possam diminuir o interesse de interagir com pares no futuro. Seguem algumas estratégias para ensinar brincadeiras.

Modelagem/imitação – Forneça à criança a oportunidade de observar os pares que estão brincando. Nesta fase, a única expectativa é que a criança permaneça perto da área da brincadeira por alguns minutos e observe os outros. Nenhuma outra forma de participação ou envolvimento é necessária. Outra alternativa é apresentar um vídeo de um grupo de crianças brincando a determinada brincadeira. Essa é uma maneira de preparar a criança para a experiência real.

Modelação – Inicialmente, a criança poderia participar das ações da brincadeira, e que são relevantes para a brincadeira, que ela consegue fazer de forma independente. Posteriormente, melhores desempenhos nessas ações podem ser esperados. Por exemplo, na brincadeira de pega-pega, inicialmente, a criança irá apenas correr junto com as demais crianças. Não importa que ela seja pega, mas se consegue correr com os colegas sem ajuda, ao longo das próximas oportunidades de brincar, um colega pode segurar a mão da criança e fazê-lo correr junto. Aos poucos, o colega pode parar de segurar a mão da criança e o desempenho independente na hora de correr é testado. Ajuda – Depois de algumas oportunidades para observar as crianças brincando, podem ser necessário dar ajuda para que a criança melhore o desempenho durante a brincadeira. Na hierarquia de ajuda mínima, ajuda menos intrusiva é fornecida primeiro. Ajuda mais intrusiva é fornecida somente se o comportamento esperado não ocorrer quando a ajuda mínima é dada. Por exemplo, no pega-pega, se a criança não começa a correr para não ser pego, o professor pode falar “O que você precisa fazer agora?”. Na hierarquia de ajuda máxima, a ajuda mais intrusiva, por exemplo, guiar a criança fisicamente para correr, é dada inicialmente. Ao decorrer das oportunidades da brincadeira, a ajuda mais intrusiva é retirada aos poucos. Os tipos de hierarquias de ajuda dadas devem ser adaptada para cada aprendiz.

Reforço positivo – Tente usar reforçadores naturais sempre que possível. O exagero de expressões faciais e emoções, e fazer ruídos engraçados podem fazer parte da brincadeira para tornar a atividade mais agradável. Além disso, se a criança está familiarizada com o sistema de economia de fichas, as fichas podem ser utilizadas na brincadeira onde os pontos são registrados. O vencedor do jogo pode então ter a chance de escolher a próxima

atividade. Os reforçadores que são uma consequência natural da brincadeira são mais recomendados do que os reforçadores artificiais, como por exemplo, comidas ou brinquedos não relacionados a brincadeira, porque podem ser facilmente transferidos para o ambiente natural durante a brincadeira com os pares. Maximizar o uso de atividades dentro da brincadeira que podem servir como reforçadores irá promover a generalização do comportamento para outros contextos. Aprender a brincar de uma brincadeira em uma situação, e ser capaz de reproduzi-la de forma flexível em outras situações semelhantes, é mais provável quando as consequências naturais da interação com os pares são reforçadoras.

Encadeamento – No contexto de brincadeiras simples onde há uma sequência de ações consistentes e previsíveis, como no jogo da memória ou dominó, o jogo poderia ser dividido em uma série de etapas ou passos simples (análise de tarefas). Ensinar um passo de cada vez e aprendê-lo antes de introduzir os outros passos pode simplificar o jogo para a criança. Por exemplo, no jogo da memória, inicie com 2 pares de cartas e peça para a criança virar uma e encontrar o igual, o adulto irá completar as etapas adicionais do jogo. Posteriormente, o adulto dá ajuda para a criança realizar as demais etapas, incluindo esperar a vez para jogar, combinar os pares e, ao final do jogo, contar os pares de cada um e guardar o jogo.

Roteiro escrito – durante a brincadeira há inúmeras oportunidades para desenvolver ou aumentar o repertório verbal, como imitar palavras, fazer comentários (“Isso é divertido”, “Sua vez”), fazer solicitações (“Me ajuda”) e iniciar a comunicação (“Vamos jogar”). As intervenções utilizando o roteiro escrito do que a criança deve fazer demonstraram ser eficazes com crianças com autismo, incluindo tanto aquelas com pouco repertório de falante, quanto as com repertório verbal mais amplo. Os roteiros são normalmente frases escritas apresentadas durante a brincadeira para evocar a resposta adequada. Por exemplo, um roteiro durante o jogo Vivo ou Morto pode ser assim: Olhe para os colegas e diga “Olá, vamos brincar de Vivo ou Morto?; pedindo para ser o líder “Posso ser o líder?”; fazendo comentários “Todo mundo precisa abaixar! Agora vamos levantar”.

Avaliando a motivação – Como saber se a criança está interessada pela brincadeira?

Medir a motivação da criança em uma atividade é tão importante quanto saber como ensinar uma brincadeira. Ser indiferente ao nível de interesse de uma criança e se concentrar apenas

no processo pode impedir sua capacidade de brincar. Ensinar todas as regras da brincadeira na primeira oportunidade pode ser muito aversivo para a criança e causar comportamentos inadequados. Observar o comportamento da criança de perto pode revelar que comportamentos inadequados ocorrem quando o interesse da criança na brincadeira diminui e a interação contínua na brincadeira é espero.

Este desafio pode ser superado levando em consideração a motivação e escolhendo brincadeiras que possuem componentes que você sabe que a criança gosta. Isso aumenta a probabilidade de o aluno exibir independência em alguns momentos durante a brincadeira. A brincadeira de pega-pega pode funcionar bem para crianças que gostam de correr ou estar ao ar livre; o-mestre-mandou pode ser uma boa escolha para crianças que possuem um bom repertório de imitação; e jogos de tabuleiro como candy land, dominó, jogo da memória podem ser apropriados para crianças que preferem estímulos visuais e correspondência.

Além disso, podemos identificar se a criança se interesse pela brincadeira quando ela segura a caixa do jogo, dá risadas durante a brincadeira.

Solicitações – A criança pediu para brincar da brincadeira depois que você ensinou-a? Ela pegou o jogo?

Se a brincadeira foi dividida em etapas possíveis com o reforço apropriado e a criança ainda não está iniciando ou exibindo respostas independentes, estas podem ser indicações de baixa motivação ou que a tarefa está sendo difícil. Se essas situações persistirem, é melhor escolher uma brincadeira diferente. Identificar o desinteresse de uma criança e saber quando parar, ou modificar uma brincadeira de forma a aumentar a motivação, pode facilitar o sucesso. A motivação pode ser passageira: o que foi divertido ontem pode não ser divertido hoje. Mas ser proativo sobre avaliar essas variações é o que deve ser duradouro.

Texto retirado do blog Different Roads to Learning: blog.difflearn.com/