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As Mudanças da Definição de Autismo

A definição de autismo mostrou mudanças contínuas desde que o transtorno foi descoberto por Leo Kanner em 1943. Como originalmente definido por Kanner, o autismo foi caracterizado por:

1) Falta profunda de contato afetivo com outras pessoas;

2) Desejo ansiosamente obsessivo pela perseverança da mesmice;

3) Fascínio por objetos, que são manipulados com habilidade em movimentos motores finos;

4) Nível de linguagem que não parece ter intenção a servir a comunicação interpessoal e,

5) Fisionomia inteligente e pensativa e um bom potencial cognitivo.

Em 1980, com o DSMIII, a definição de autismo mudou para incluir as seguintes características:

1) Falta de capacidade de resposta para outras pessoas;

2) Déficits grosseiros no desenvolvimento da linguagem, incluindo padrões de fala peculiares, como ecolalias imediatas e atrasadas e reversão do pronome e,

3) Resposta bizarra a vários aspectos do meio ambiente.

Em 1994, a definição mudou no DSM IV-R incluindo três categorias principais:

1) Comprometimento qualitativo na interação social;

2) Deficiências qualitativas na comunicação e,

3) Padrões de comportamento restritivo repetitivo e estereotipados, interesses e atividades.

Hoje, no DSM-V, o autismo é chamado de Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). O transtorno é referido como espectro por conta da diversidade da qual as características do transtorno aparecem em cada pessoa, assim como o nível de comprometimento. As características estão descritas em dois grupos (1) déficits de interações sociais e de comunicação e (2) comportamentos repetitivos e interesses restritos e podem variar em três níveis 1, 2 e 3), sendo o nível 1 o nível de menor comprometimento.

Em 1958 o autismo era um transtorno muito raro, com prevalência menos de 1 por cento dos casos clínicos iniciais de Kanner. Em 2014, os Centros para Controle e Prevenção de Doenças (The Centers for Disease Control and Prevention -CDC) dos EUA estimou que o TEA afeta uma em cada 68 crianças americanas.

As causas desse enorme aumento nas estimativas da prevalência do autismo têm sido amplamente discutidas e o aumento foi atribuído a muitos fatores. A maior evidência científica disponível hoje aponta para a possibilidade de várias combinações de fatores que causam o autismo, talvez o efeito cumulativo de múltiplos componentes genéticos ou uma predisposição para danos causados por exposições ambientais ainda não determinadas. O momento destas exposições durante o desenvolvimento de uma criança (antes, durante ou após o nascimento) também podem desempenhar um papel no desenvolvimento ou na apresentação final do transtorno.

Um pequeno número de casos de autismo pode estar ligado a transtornos genéticos, como X Frágil, esclerose tuberosa e síndrome de Angelman, bem como exposições ambientais, infecções (rubéola materna ou citomegalovírus) ou agentes químicos (talidomida ou valproato) durante a gravidez. Há um crescente interesse entre os pesquisadores sobre o papel do sistema imunológico no autismo.

Embora as causas definitivas da maioria dos casos de autismo ainda não estejam claras, é sabido que não é causada por maus pais. Dr. Leo Kanner, o primeiro psiquiatra que descreveu o autismo como uma condição única em 1943, acreditava que ele fosse causado pelo frio, sem amor das mães, apesar do fato de que esses mesmos pais também tiveram crianças saudáveis. Bruno Bettelheim, professor de desenvolvimento infantil, perpetuou essa interpretação errônea do autismo. A promoção da ideia de que as mães sem amor causariam o autismo de seus filhos, impediu a investigação biológica da natureza do autismo e criou uma geração de pais que carregavam o enorme peso da culpa pela deficiência de seus filhos.

Referências

New guidance on autism. (2007). Lancet, 370(9599), 1590-1590.

Mayville, E. A. & Mulick, J. A. (2010). Bahavioral Foundations of Effective Autism Treatment. http://www.autismspeaks.org/sites/default/files/school_community_tool_kit_brazilian_portuguese.pdf