12
jul

Sobre a busca sensorial dos indivíduos com autismo

Algumas pessoas acreditam que os analistas do comportamento são “anti-sensoriais” – e que se opõem a oferecer qualquer experiência sensorial para indivíduos com transtorno do espectro do autismo. O termo “sensorial” pode ser problemático e ambíguo, porque não especifica se um indivíduo está mostrando uma preferência sensorial ou aversão sensorial, nem se a experiência sensorial é um “gosto” ou uma “necessidade”. Também pode minimizar ou desconsiderar outras explicações de por que um comportamento está ocorrendo. Tais distinções são extremamente significativas ao desenvolver um plano de tratamento.

Esclarecendo como os analistas do comportamento abordam as questões sensoriais

A. Nem todo problema de comportamento deve ser considerado como sendo de base sensorial. Antes de mais nada, vamos discutir sobre motivação. Cada um de nós, não apenas crianças com autismo, pode ser altamente motivado por experiências sensoriais que variam em modalidade, intensidade e duração. Por exemplo, você se viu mordendo um lápis, girando os polegares, roendo unhas ou estourando papel bolha? Se sim, você se consideraria tendo “problemas sensoriais”? Da mesma maneira, todos nós somos altamente motivados por outras experiências, como atenção, um sorriso, um olhar de aprovação ou risos. Outras vezes, é algo tangível e específico, como um novo par de tênis ou um bom livro. Todos nós nos envolvemos em uma variedade de comportamentos para acessar essas experiências. Por outro lado, às vezes somos motivados a evitar ou fugir de algumas situações (por exemplo, fechar a porta do escritório ou ignorar chamadas de telemarketing) ou outras coisas específicas (por exemplo, uma multa de trânsito ou alimentos preteridos).

Por que isso é importante?

Primeiro, a avaliação do comportamento indesejado deve identificar cuidadosamente a função desse comportamento (ou seja, a motivação subjacente) para que ele tenha a maior probabilidade de levar a uma intervenção efetiva. Para ilustrar a importância da análise da função do comportamento problema, vamos usar o mesmo comportamento (morder) em alguns exemplos diferentes para ajudar a fazer a distinção entre forma (por exemplo, morder) e função (por exemplo, para escapar de uma demanda de ganho de informações sensoriais).

  • Théo morde a professor quando ela tenta ajudá-lo a subir as calças.
  • Lisa morde o pai assim que ele para de brincar com ela e tenta sair da sala para atender o telefone.
  • Felipe morde a babá quando ela pede para ele desligar o iPad.
  • Maria morde os colegas quando o sinal toca ou a irmã mais velha aumenta o volume da música. Joana morde o braço do pai quando ele veste camisas de manga comprida.
  • Os dentes de Miguel estão nascendo e ele foi visto mordendo um cabide de plástico.

Como podemos verificar, o mesmo comportamento (morder) ocorre em contextos diferentes e provavelmente serve para motivos distintos. Em alguns casos, a motivação pode ser obter ou manter um item ou atividade de preferência, enquanto em outros casos a criança está tentando evitar ou escapar de algo que não gosta. Uma explicação “sensorial” baseada no fato de que eles estão mordendo não trataria o foco do problema na maioria dos exemplos citados anteriormente. Se rotularmos certos comportamentos como “sensoriais”, a intervenção sensorial recomendada não abordará adequadamente o comportamento alvo e poderá impedir o acesso a intervenções mais eficazes.

B. Nem todo comportamento de busca sensorial reflete uma “necessidade”.

Vamos examinar o uso indevido do termo “necessidade sensorial” e diferenciar entre uma necessidade sensorial e uma preferência sensorial. Algumas crianças com autismo gostam de balançar e podem estar dispostas a seguir as instruções dadas pelo terapeuta para conquistar o acesso ao balanço e demostrar muito prazer enquanto se balançam. No entanto, outras crianças podem iniciar a sessão terapêutica bastante agitadas e parecer mais calmas após o balançarem, mas não é necessariamente uma experiência que elas escolheriam (crianças que sentem alívio de uma dor ao tomar um analgésico também podem se beneficiar do remédio, mas não necessariamente o escolheriam).

Atividades que estimulam os sentidos podem servir para múltiplas funções comportamentais, dependendo da motivação. É provável que pular em na cama elástica seja repetido por causa de seus efeitos vestibulares reforçadores – é divertido. Isso leva à pergunta: “A criança pula na cama elástica porque precisa pular nela ou porque é agradável?” Novamente, as respostas dependem da história de aprendizado, das habilidades de comunicação, das contingências sociais e da força da motivação.

C. As preocupações “sensoriais” têm implicações profundas no ensino de novas habilidades que podem ser direcionadas por meio de estratégias analítico-comportamentais.

Qualquer discussão sobre “questões sensoriais” seria negligente, sem mencionar a hipersensibilidade sensorial. Também observamos alguns indivíduos com autismo que têm reações extremas a estímulos sensoriais (por exemplo, barulhos altos, luzes fortes) e há aqueles que são mais sensíveis a texturas ou certas roupas (por exemplo, a etiqueta nas costas de uma camiseta, ou uma comida). Essas crianças aprendem a se engajar em comportamentos que reduzem a natureza aversiva de tal estímulo. Mas isso não é exclusivo do autismo – também existem pessoas sem autismo que são sensíveis a certos estímulos.

Existem pessoas que apresentam extremo desconforto quando expostas a situações que seriam consideradas típicas para a maioria de nós (por exemplo, música alta). Alguns se engajarão em comportamentos que aliviam a ansiedade, por exemplo, comportamentos de fuga (deixando a situação), comportamentos de esquiva (ignorando a situação completamente) ou emitindo comportamentos incompatíveis (praticando técnicas de relaxamento). Nesses casos, existem habilidades e estratégias sofisticadas. É lamentável que muitas pessoas com autismo não tenham as habilidades necessárias para se envolver nos métodos socialmente aceitos que aliviam a ansiedade ou o desconforto. No entanto, muitos outros comportamentos não socialmente aceitos foram moldados e provaram ser eficazes na remoção da estimulação aversiva. Se estivéssemos em uma sala onde a música fosse muito alta, sairíamos ou pediríamos para abaixá-la. Se esses comportamentos não forem possíveis, talvez tenhamos que tolerar a situação. Aprendemos que comportamentos como morder resultarão em consequências sociais indesejadas. Mas e se:

  • Não soubéssemos falar o idioma para pedir que a música fosse abaixada?
  • Não soubéssemos que sair da sala era uma opção, ou não soubéssemos perguntar, ou se fôssemos forçados a ficar na sala?
  • Não nos importássemos com as consequências sociais como os outros? Isto é, não nos importássemos com o que os outros falassem ou se seríamos convidados novamente para eventos sociais futuros.

Se tudo isso fosse verdade, poderíamos começar a morder para que a música fosse desligada ou para que fôssemos retirado da sala assim que percebêssemos que esse é um comportamento eficaz.

Agora, suponha que temos essas habilidades e sempre podemos encontrar uma maneira de sair de situações que causam estresse ou sobrecarga sensorial; ou enfrentamos dificuldades por causa das contingências sociais que foram aprendidas ao longo da nossa vida. Provavelmente, ninguém falaria que temos problemas sensoriais e nos colocaria em uma dieta sensorial ou prescreveria terapia de integração sensorial. No entanto, uma pessoa com autismo que pode ter o mesmo nível de desconforto e evita a situação da única maneira que sabe, costuma ter “problemas sensoriais” quando, na verdade, seria mais correto e útil dizer que tem déficits de habilidade.

Em resumo, para desenvolver o tratamento mais adequado e eficaz, é preciso analisar a função, avaliar se o comportamento tem uma base sensorial (e se reflete uma “necessidade” ou um “gosto”) ou outras motivações subjacentes. É importante identificar as habilidades (por exemplo, saber pedir) que podem competir e potencialmente substituir o comportamento ou fornecer ao indivíduo habilidades de enfrentamento para melhor lidar com o seu ambiente.